Avenue

Por

William Castro

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XPInvestimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGRGestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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Algo básico no mundo dos investimentos é a consciência de que TODO investimento carrega algum nível de risco. Esse é um conceito central e fundamental. Se você pensar em abrir uma pizzaria, por exemplo, podemos identificar uma série de riscos potenciais para esse investimento: risco de um novo concorrente, de a pizzaria ser assaltada, dificuldades na execução, custos elevados pressionando as margens, mudanças na tributação etc. Da mesma forma, ao investir em ações de uma empresa, também nos parece óbvio que existem riscos semelhantes: cenário macroeconômico, questões regulatórias, governança da empresa, endividamento etc.

O mesmo acontece ao investirmos em um país, esse risco se reflete ou se relaciona diretamente com sua moeda. O veículo mais rápido de transmissão e percepção desse risco associado a um país é sua moeda.

Isso parece simples quando pensamos, por exemplo, na possibilidade de investirmos no México, na Colômbia, na África do Sul, na Turquia etc. Questões como segurança jurídica, estabilidade política e situação econômica logo vêm à mente.

Da mesma forma, ao investirmos no Brasil, o risco associado a esse investimento está intrinsecamente ligado à moeda Real.

  

RISCO À MOSTRA: ENTENDENDO A ALTA RECENTE DO DÓLAR

Esse risco se torna mais evidente em alguns momentos. Esta semana foi um desses momentos.

Tudo começou na sexta-feira, 07 de junho, quando surgiram notícias de que, em um encontro com investidores a portas fechadas, algumas declarações do ministro Haddad não teriam sido bem recebidas. Verdadeiras ou não, o fato é que isso gerou impacto na moeda.

Fonte: Globo – 07/jun/2024

 

O cerne das atuais preocupações do mercado se refere à questão fiscal brasileira. O gráfico abaixo mostra a evolução do déficit nominal do governo em diferentes administrações.

Fonte: Poder360 – 29/mai/2024

 

A preocupação do mercado é que o aumento dos gastos e do déficit ocorre em um contexto de crescimento no Brasil, ainda em níveis similares aos observados durante a pandemia. Além disso, o arcabouço fiscal estabelecido pelo governo tem sido cada vez mais questionado. Ele já havia sofrido um golpe inicial de confiança em abril, quando o governo enviou a LDO 2025, a qual revisou as metas fiscais menos de um ano após terem sido estabelecidas.

Fonte: UOL.com – 16/abr/2024

  

Junto a isso, as propostas apresentadas até agora têm sido de aumento de impostos como forma de aumentar a arrecadação. O caso recente do PIS/Cofins é o exemplo mais recente disso. Tais medidas têm reduzido o apoio ao governo por diferentes setores da sociedade – Setores variados da economia estão rompendo publicamente com o governo Lula 3 – Estadão (estadao.com.br); O empresariado desembarca do governo Lula – Revista Oeste .

Além disso, um tuíte recente do presidente Lula também não foi bem interpretado e, em um dia positivo para ativos de risco no mercado global, vimos o Real ter um desempenho ruim.

 

Fonte: Lula on X – 12/jun/2024

  

A leitura do mercado foi que o governo e o presidente não consideram o crescimento dos gastos como um problema. Ao não abordar a necessidade de controle das despesas, fica implícito que o governo não está preocupado com essa questão.

Já comentei anteriormente aqui (no artigo “Entendendo a alta do Dólar e do Ouro”) que a alta do dólar também reflete fatores externos. No entanto, os movimentos recentes que observamos refletem essa combinação de fatores.

Como resultado disso, o Real é uma das moedas que mais se desvalorizou este ano:

 

MAS NÃO É DE HOJE…

Apesar de a narrativa acima se referir ao momento atual que vivemos, a realidade é que as oscilações da moeda não se limitam aos governos A ou B.

Nossa história mostra que os impactos na moeda ocorrem por diversos fatores, sejam internos ou externos. A título de exemplo:

  • Crises externas em países emergentes geram risco de contágio que acaba afetando nossa moeda;
  • Problemas como o apagão em 2001 e a greve dos caminhoneiros em 2018;
  • Graves crises como as de 2008 e 2020 afetam diretamente nossa moeda;
  • Conflitos entre presidentes e ministros abalam a estabilidade interna;
  • A possibilidade ou não de aprovação de reformas, como a reforma da previdência em 2019, por exemplo;
  • Eleições sempre geram incertezas que se refletem na moeda.

 

Todos esses fatores influenciam a moeda e ajudam a explicar os picos que observamos na cotação do dólar frente ao Real – conforme o gráfico abaixo. Como discutimos anteriormente em “Entendendo a alta do Dólar e do Ouro… (avenue.us)”, vemos que o dólar “sobe de elevador e desce de escada”.

Fonte: Tradingview.com – 14/jun/2024

  

COMPRANDO REAIS?

Agora, é importante considerar o seguinte:

Sempre que você opta por investir no Brasil — seja em um fundo, CDI, IPCA+, debêntures, ações, entre outros —, está assumindo dois tipos de risco: o risco específico do investimento em si e o risco associado à moeda. Implicitamente, você decide comprar Reais ao realizar o investimento.

Cada vez que você investe no Brasil, está fazendo uma aposta na moeda do país. Está confiando na capacidade do país de crescer, em sua solvência fiscal, no seu ambiente político e social, e na capacidade da economia de proporcionar o retorno que você busca.

Faz sentido?

Não há problema algum em comprar Reais e investir no Brasil. Eu realmente acredito que o Brasil oferece oportunidades de investimento interessantes e potenciais de crescimento significativos! No entanto, apesar das minhas convicções, é verdade que nem sempre a economia brasileira consegue atender a essas expectativas.

Esta semana, em uma entrevista ao Brazil Journal, Fernando Meira, CEO do Pinheiro Neto, o maior e mais tradicional escritório de advocacia de São Paulo, comentou:

“O que o investidor quer é previsibilidade, estabilidade e segurança. O que o Brasil oferece é o oposto,” … “É zero segurança jurídica, com mudança nas regras o tempo todo.”  disse o chefe do Pinheiro Neto – Brazil Journal

 

CONCLUINDO

Faz sentido concentrar todo o nosso capital em um único país? Faz sentido não diversificar o risco associado ao país e à sua moeda?

Na minha opinião, não.

Por isso, escrevemos recentemente: Quanto alocar em investimentos no exterior? 

 

Leia esse texto, pois sua mensagem é muito importante. Em resumo, podemos afirmar o seguinte:

Em nossa visão todos os clientes da Avenue, independente do perfil de investidor podem se beneficiar ao manter parte relevante do seu portfólio investido no exterior, tendo em vista que, em geral, a adição de ativos descorrelacionados a uma carteira, melhora a relação risco/retorno da mesma e que grande parte dos custos da vida do brasileiro está atrelado ao dólar norte-americano. Entendemos adequado que, em geral, um brasileiro tenha cerca de 40% da sua carteira de investimento alocada no exterior, desde que essa alocação esteja alinhada ao seu perfil de risco. Vale a importante ressalva de que é primordial que o brasileiro mantenha em Reais um montante destinado a cobrir gastos inesperados e que atenda à sua necessidade de liquidez local (em geral, de 3 a 6 rendas mensais).

 

Entendemos que a recente alta do dólar pode preocupar alguns, levantando a questão: devo comprar agora, após essa valorização? Neste sentido, escrevemos aqui que o preço do dólar não é tão relevante quanto o que você faz com seus dólares.

O investidor brasileiro pode se proteger investindo em dólares e aproveitar as altas taxas de remuneração na renda fixa nos últimos anos, contar com a expertise das maiores gestoras globais para administrar seu patrimônio ou aproveitar o maior mercado de ações do mundo. Existem milhares de alternativas disponíveis para se proteger do risco Brasil, acessando o maior mercado de investimentos global.

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ENQUANTO ISSO NA ECONOMIA…

Mas além das fronteiras brasileiras, alguns dados agitaram o mercado americano nos últimos dias. São indicadores de alta importância que foram capazes de impactar não apenas no dia, mas também nas perspectivas futuras. Vamos a eles:

 

Menos inflação.

Na quarta-feira (12 de junho), o principal indicador de inflação nos EUA (CPI) apresentou uma evolução positiva, ficando abaixo do esperado em todas as diferentes medições. Isso inclui tanto o núcleo quanto o índice cheio, tanto nas comparações mensais quanto anuais. O índice cheio registrou um aumento de 0,1% no mês e de 3,4% nos últimos 12 meses. É importante mencionar que a inflação anual ainda está significativamente acima da meta de 2% do Fed, mas mostrou uma tendência positiva nos últimos dois meses. Ao anualizar os dados dos últimos três meses, chegamos a um número de 3,3%, inferior aos 4,1% registrados na comparação anterior do mesmo período – conforme ilustrado no gráfico abaixo.

Fonte: Nick Timiraos on X – 12/jun/2024

 

A questão é que o dado de maio sucede números abaixo do esperado em abril, dando a impressão ao mercado de que a inflação parece voltar a uma trajetória benigna. Corroborando isso, na quinta-feira (13 de junho), tivemos o dado de inflação ao produtor americano, que também surpreendeu pela desaceleração. O índice de preços ao produtor caiu 0,2% no mês, de acordo com o Bureau of Labor Statistics, revertendo o aumento de 0,5% em abril e ficando bem abaixo da estimativa de mercado de um aumento de 0,1%.

 

“Higher for longer”

Apesar do dado favorável de inflação, tivemos a reunião do comitê de política monetária americano com algumas novidades interessantes.

Conforme esperado, o Banco Central americano manteve a taxa básica de juros americana em uma faixa entre 5,25% e 5,50%.

Fonte: Cnbc.com – 12/jun/2024

 

No entanto, mais importante do que a definição da taxa de juros, foi a atualização das projeções econômicas. O comitê de política monetária americano elevou sua estimativa para as taxas de juros ao final de 2024 e 2025 (veja imagem abaixo) e indicou uma projeção maior de inflação para 2024 e 2025.

Fonte: Federal Reserve – 12/jun/2024

 

Ou seja, o FOMC reduziu sua projeção de cortes de juros para 2024 de 3 cortes para apenas 1 corte – conforme ilustrado no gráfico de pontos abaixo.

Fonte: zerohedge on X – 12/jun/2024

 

O que isso quer dizer?

Apesar dos dados favoráveis de inflação, o banco central americano destacou o progresso modesto alcançado até agora nos indicadores de inflação. Permanece preocupado e comprometido em aproximar a inflação de sua meta de 2%, justificando assim sua revisão nas projeções de cortes de juros para 2024, reduzindo-os. Por outro lado, o FOMC adotou uma postura mais agressiva para 2025 – conforme indicado no gráfico de pontos, o comitê prevê quatro reduções totalizando um ponto percentual em 2025.

A interpretação é que o comitê continua comprometido com o combate à inflação e necessita de mais progressos nos dados para fundamentar uma mudança em sua política monetária. Apesar de ter sido recebida negativamente pelo mercado de risco a curto prazo, entendemos que a decisão e as alterações nas projeções são coerentes com o cenário inflacionário.

 

Impacto no mercado.

A esses dados, podemos adicionar o payroll (relatório do mercado de trabalho) divulgado na sexta-feira anterior (07 de junho). O impacto no mercado pode ser observado no gráfico da curva de juros de 2 anos dos Estados Unidos. Em suma, nos últimos dias temos vivenciado momentos de grande volatilidade e incerteza nos mercados.

No entanto, de maneira geral, entendemos que a interpretação atual do cenário é positiva. A economia continua crescendo; ao mesmo tempo, observamos sinais de desaceleração que sugerem uma continuidade favorável para a inflação. Com isso, entendemos que ainda há espaço, desde que os dados continuem corroborando, para o banco central americano alterar sua política monetária ainda este ano, com setembro sendo o momento mais provável, conforme a maioria das expectativas de mercado atualmente.

Fonte: US inflation cooled in May – The Daily Shot – 12/jun/2024

 

E OS RESULTADOS…

Como mencionamos na semana passada, a maior parte dos resultados trimestrais já foi divulgada, e junho reserva poucos números pendentes. Para esta semana, as seguintes empresas divulgarão seus resultados:

 
 

E para quem quiser, sempre deixo o convite para me seguir nas redes sociais – @willcastroalves tanto no Twitter quanto no Instagram – e compartilhar suas opiniões.

Aquele abraço!

William Castro Alves

Estrategista-chefe da Avenue Securities

 

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William Castro

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XPInvestimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGRGestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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