Vejo algumas pessoas dizendo que quem optou por internacionalizar seu patrimônio se deu mal, ou “errou a mão”, haja vista a fraca performance da bolsa americana esse ano e a queda do dólar. Acho engraçado. Deixe-me dissertar a respeito…

O Brasil viveu nos últimos anos uma profusão de ideias e de conteúdos sobre investimentos e mercado de capitais, algo que é muito positivo. Esse movimento desenvolveu um ecossistema e uma população que abraçou o tema como parte de suas vidas. E recentemente mais uma fronteira foi (e continua sendo) aberta: a do acesso irrestrito a todo e qualquer tipo de investidor ao mercado de investimentos global.

A internacionalização é um caminho sem volta.

O próprio desenvolvimento normal do mercado empurrou investidores e recursos para outros mercados, em um círculo virtuoso positivo, uma derivada do progresso e desenvolvimento.
Mas ao mesmo tempo que um mundo de possibilidades foi criado, existe um mar de possibilidades e de desconhecimento que causa certa confusão a muitos. Normal. Quem assistiu ao tragicômico filme alemão “Adeus, Lênin!” vai entender que a mudança causa algum espanto e desconfiança – na obra, os mais velhos não viam com bons olhos a abertura da Alemanha Oriental às “modernidades ocidentais”.

Mas me chama atenção ver que mesmo literatos, influentes e inteligentes agentes do mercado desdenham do tema ou tentam te convencer do contrário. Um negacionismo bobo, que só me parece fazer sentido sob a ótica do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, ou seja, se isso não me favorece eu não recomendo.

O que quero dizer com isso?
Vejo muita gente alardeando ou mesmo “zombando” daqueles que decidiram internacionalizar parte do patrimônio e, sob o olhar efêmero dos últimos 3 meses, apontam que esse foi um erro de alocação de capital/investimento.

Daria para dissertar sob os diversos vieses comportamentais de quem faz isso: confirmation bias, aquela tendência de procurar e interpretar dados que defendam seu próprio ponto de vista; hindsight bias, que faz com que o sujeito se convença depois do evento de que havia previsto o acontecido, quando na verdade não previram coisa alguma; mas o que mais vejo atualmente é o framing bias.

Já volto a ele…
Mas quantos lembram daquele filme, o Groundhog Day?

É uma comédia romântica de 1993. Ela tem como protagonista Bill Murray interpretando um repórter de meteorologia bastante arrogante que se vê preso numa espécie de túnel do tempo, que o faz reviver o mesmo dia incontáveis vezes. No Brasil, o filme veio com o nome Feitiço do Tempo.

Pois bem. Alguns analistas até famosos parecem viver presos a esse Groundhog Day, analisando apenas a fotografia e não o filme, e perpetuando essa foto como uma nova verdade. Esse é o framing bias.

Já vi esse filme antes. Estou à espera de uma capa de revista para confirmar uma inversão.

Vou navegar sobre alguns argumentos acerca da internacionalização, mas olhando dentro de uma perspectiva maior e não tática, temporal e de curto prazo, como tenho visto por aí no Brasil.

  • Investimentos devem ser considerados dentro de uma janela maior do que a de 3 meses. Quando ampliamos o horizonte de análise, vemos que o S&P 500, de 31/03/2020 a 31/03/2022, apresentou uma alta de 78%, algo que no meu entendimento mais do que compensa os 8% de desvalorização da moeda no período (dólar sai de R$ 5,19 para R$ 4,77, considerando os fechamentos dos meses de março). Se ampliar mais o horizonte de análise, para 5 ou 10 anos, a diferença fica ainda maior. Em 5 anos o retorno composto (dólar mais o índice S&P 500) foi de 181%, e, em 10 anos, de 722%. Em 5 anos, o dólar teve alta de 52% e o S&P 500 de 85%; em 10 anos, o dólar apreciou 160% e o S&P 500 avançou 216%. Para todos os cálculos considerei os fechamentos dos meses de março de cada ano. Nada garante que será assim no futuro, mas isso dá uma ideia melhor do filme, e não apenas da foto de 3 meses.
  • Mas tudo bem, você pode dizer que tal retorno é passado e temos que olhar prospectivamente. Pois bem, a gestora brasileira Dahlia traz um ponto interessante em sua última carta do gestor, quando fala sobre a inflação fazer seu pico e relacionar esse pico a uma inflexão na bolsa. Interessante que essa é uma conversa que ouço aqui nos EUA também. Andrew Hunter, economista sênior da Capital Economics, comentou após o dado do CPI, o índice de inflação americano, dessa semana: “A grande notícia do relatório de março foi que as principais pressões de preços finalmente parecem estar se moderando”. Hunter acredita que o aumento de março “marcará o pico” da inflação aqui nos EUA. Será que também veremos uma inflexão da Bolsa por aqui? Só o tempo irá dizer.
  • Outro argumento se dá sobre a recente inflexão da curva de juros nos EUA. Escrevi um artigo para explicar isso, mas o ponto central trago aqui: a inflexão não garante que teremos uma recessão nos EUA, nem que isso é de fato negativo para a bolsa americana em um prazo de 12 meses. Em suma, eu acredito que não há causa e consequência.
  • O pessimista sempre se passa por uma pessoa inteligente, sábia e prudente, e o otimista um eterno bobo. A ideia das “bolhas das techs” vende clique e ganha adeptos, quase como uma seita, mas é uma teoria que está sempre presente no armário de analistas e volta e meia reaparece com aquele cheirinho de naftalina. A despeito de eventuais bobagens ditas por aí, é normal aceitar um múltiplo menor com o aumento de juros nos EUA. É uma questão de matemática. Se o denominador da equação aumentar (nesse caso, os juros), o múltiplo “justo” aceito tende a diminuir. Ainda assim, existem “Techs” e “Techs”: empresas com caixa suficiente para comprar o sistema financeiro brasileiro inteiro; empresas que, mesmo ao desacelerarem, crescem em 20% receitas que já estão na casa das dezenas de bilhões de dólares; empresas que vendem o PIB do Brasil em um ano com operações globais e com belos moats buffetianos – ou seja, com habilidade para manter suas vantagens competitivas. Então a generalização rasa de um cenário dantesco para empresas de tecnologia só serve para o púlpito da seita, a meu ver.
  • Olhando o curto prazo, o S&P teve um dos piores primeiros trimestre de toda sua história em termos de performance. Terrível? Para quem entende a lógica do contrarian investor deveria ser uma delícia! Aliás, até aqui a bolsa americana fez mínima em março, quando os canhões explodiram em Kiev. O que o Oráculo de Omaha no ensina sobre o som dos canhões?
  • Fora isso, esse olhar míope sobre o retorno da foto de curto prazo coloca de lado questões como: segurança jurídica e proteção patrimonial em moeda forte; o quão dolarizado já é nosso perfil de consumo e a necessidade de equacionarmos nosso balanço patrimonial próprio cheio de passivos dolarizados; o quão dependente do Brasil nossa vida já é quando pensamos em termos de renda futura; o acesso a produtos globais que descorrelacionam carteiras; globalização de uma vida financeira.

Até aqui, o investidor brasileiro ficou restrito ao Mito da Caverna de Platão. Enxergávamos de longe as sombras do que acontecia fora sem poder participar disso.

Mas isso mudou, e entendo que é um caminho sem volta. Internacionalizar é uma filosofia de investimento e uma necessidade.

Saímos do Groundhog Day eterno da diversificação apenas entre renda fixa e bolsa nacional. Ter ficado na caverna nos últimos anos nos tolheu de participarmos do enorme desenvolvimento do mercado de games dos últimos anos, do avanço da biotecnologia que nos deu uma vacina contra a Covid em meses, da expansão da cibersegurança, do nascimento da indústria de cannabis, da recuperação do mercado imobiliário americano pós-2008, entre outros. E mesmo para surfar o boom recente do petróleo, a melhor alternativa não foi no veículo estatal nacional, mas sim em empresas privadas internacionais que conseguem repassar os maiores preços da commodity sem greves ou intervenções.

Taticamente, o Brasil parece interessante se perpetuarmos o cenário atual de forte preços de commodities, se não tivermos surpresas nas eleições, se o investidor estrangeiro seguir acreditando no Brasil, se desconsiderarmos muitos dos problemas estruturais que nos acorrentam numa situação de baixo crescimento e elevada inflação, se a inflação não surpreender e corroer o retorno da renda fixa, entre tantas outras condicionantes.

O investidor brasileiro já tem sua renda futura, trabalho e vida correndo o Risco Brasil. Taticamente, sempre temos que considerar todo e qualquer tipo de investimento, inclusive ter uma exposição maior ao Brasil. Entretanto, estruturalmente o investimento global não deveria ser mais uma opção, e sim uma necessidade de todo e qualquer investidor. Olhando retrospectivamente, o acesso a produtos globais nos últimos 10, 20, 30 ou 50 anos teria feito uma enorme diferença no nível de poupança e riqueza do brasileiro. Por que agora seria diferente?

Abordei mais esse tema no podcast Moneyplay, que ficou super completo – veja aqui a transmissão. Vale a pena assistir ou recomendar para aqueles que ainda têm dúvidas sobre o tema.

Prometo que semana que vem volto com uma análise menos teórica/conceitual e mais conatural/analítica de mercado.

 

 

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Aquele abraço,

WILLIAM CASTRO ALVES

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